A pressão contra Nicolás Maduro aumenta às vésperas da marcha convocada pela oposição venezuelana para esta quarta-feira. Durante a noite de segunda-feira, 22, foram registrados em Caracas cerca de trinta protestos de rua, de acordo dados da ONG Observatório Venezuelano de Conflitividade Social. Muitas atraíram multidões, a maioria delas violentas. Ao menos quatro pessoas morreram durante os distúrbios. Moradores enfurecidos confrontaram as forças de segurança queimando pneus e tomando as ruas. As manifestações foram contidas com vigor pela Polícia Nacional Bolivariana. Outros milhares de pessoas o fizeram de suas casas, batendo panelas longamente. Todos reclamaram do caos econômico, do colapso dos serviços, da dissolução dos salários e exigiram a renúncia do presidente.

A dimensão e a duração desses protestos, que não foram convocados previamente, deixaram a opinião pública atônita. Boa parte dos enfrentamentos ocorreu em bairros empobrecidos que eram bastiões do chavismo, como Ruiz Pineda, Las Adjuntas, Petare, comércios, La Pastora ou San Agustín. Uma estátua de Hugo Chávez foi queimada por turbas enfurecidas na avenida Dalla Costa, em San Félix, a 800 quilômetros ao sul de Caracas. Por volta das 17h, em algumas estações do Metrô de Caracas, transeuntes entoavam cantos contra o Governo de Maduro.

A reação nos bairros a oeste de Caracas, tradicionalmente controlados pelo chavismo, a escaramuça militar da madrugada de segunda-feira e a multiplicação de reuniões abertas ou assembleias de moradores convocadas pela Assembleia Nacional em todo o país, com a presença de multidões apesar da censura, espalharam otimismo entre dirigentes da oposição e analistas ligados à dissidência. É assim que o país enfrenta a mobilização nacional de 23 de janeiro, data em que se comemora o nascimento da democracia, em 1958.

“Estamos com vocês”

Esta convocação recebeu na terça-feira o apoio da Administração de Donald Trump. O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, divulgou um vídeo que cumprimenta os venezuelanos em castelhano, reitera-lhes que não estão sozinhos em sua luta, e se refere ao Governo de Maduro em termos nada amistosos. “Estamos com vocês”, disse Pence, enquanto o senador republicano Marco Rubio pediu ao próprio Trump para reconhecer Juan Guaidó, presidente do Parlamento, como presidente legítimo.

A mesa diretora Câmara, de maioria oposicionista e declarada em desacato pelo regime, devolveu a iniciativa política à oposição depois de muito tempo. A questionada posse de Maduro, em 10 de janeiro, disparou os alarmes e espalhou a sensação de saturação. Na terça-feira, no que foi uma de suas primeiras decisões executivas, a Assembleia Nacional nomeou Gustavo Tarre Briceño, tarimbado escritor e dirigente político, como representante especial na Organização dos Estados Americanos (OEA) para a transição à democracia, em um gesto que foi apoiado pelo seu secretário-geral, Luis Almagro.

Na segunda-feira Guaidó gravou uma mensagem respeitosa “à família militar venezuelana”, que viralizou nas redes sociais. Nela, ele convida novamente as Forças Armadas a interpretar corretamente a Constituição. Isto é, “ficar ao lado do povo” e trabalhar com eles no restabelecimento da ordem constitucional. Guaidó lembrou que seus avós eram militares de carreira e disse-lhes mais uma vez que “a cadeia de comando está quebrada”. “O Exército não tem comandante em chefe”, disse ele, referindo-se ao caráter usurpador do Governo de Maduro.

Parece haver, como nunca, uma sincronia entre a efervescência do descontentamento que brota nas ruas e o volume da pressão internacional. Enquanto isso, nos comandos chavistas parece reinar a confusão. Esse movimento aparece diminuído nas ruas, sustentado principalmente pela vontade dos militares. Por enquanto, não se dispuseram a prender Guaidó nem a judicializar os protestos de rua. O fracassado processo de captura do dirigente da oposição, na semana passada, foi abundante em confusões. Seus dirigentes convocaram outra manifestação no mesmo dia 23, data reivindicada também pelo chavismo, mas suas concentrações recentes languidescem diante do tamanho da fúria popular.

O ministro das Comunicações, Jorge Rodríguez, acusou o Vontade Popular, o partido de Guaidó, fundado por Leopoldo López, de instigar os distúrbios da noite de segunda-feira e de tramar um complô com os oficiais que se levantaram na segunda-feira para roubar armas e produzir um evento fatal no dia 23.

Fonte: El País

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