Ninguém disse que o país deu um cheque em branco a Fernando Henrique Cardoso ao elegê-lo presidente da República em 1994 e reelegê-lo em 1998 sem que precisasse disputar o segundo turno.

Pareceu a todos uma coisa normal. Se, como mandava a lei, ele obteve 50% mais um voto, natural que assumisse o cargo. Quando nada, o país seria poupado de mais 20 dias de campanha.

De resto, eleito no primeiro turno, o novo presidente ficou dispensado de barganhar com forças políticas que só se dispunham a apoiá-lo no segundo, e sabe-se muito bem em troca do quê.

O presidente ganhou tempo para montar sem tanta pressa sua equipe de governo e planejar suas primeiras ações; um presidente fortalecido por uma admirável manifestação de fé popular.

E por que agora, só agora, ouve-se vozes a bradar contra uma eventual eleição do próximo presidente no primeiro turno? Na verdade, contra a eleição de Lula em 2 de outubro?

Dizem alguns: cheque em branco, somos contra. Dizem outros: o segundo turno reforça a autoridade do presidente eleito. E há os que dizem: a democracia só tem a ganhar havendo segundo turno.

Uma parte dos que dizem essas coisas são os órfãos da chamada terceira via que não deslanchou até aqui, e que dificilmente terá tempo para deslanchar. Em desespero, estrebucham na maca.

Outra parte é a dos que não votarão em Bolsonaro de jeito nenhum, mas que talvez votem em Lula, contrafeitos. E tem aqueles que na hora H taparão o nariz e votarão em Bolsonaro.

O voto secreto serve também para esconder a vergonha. Eleitores perdidos por Bolsonaro se preparam para votar no imbrochável, a única maneira de blindar o Brasil contra o comunismo.

Mas, se um candidato com menos de 10% dos votos pode sonhar em crescer a para substituir Bolsonaro no segundo turno, por que quem tem mais de 40% não pode sonhar em liquidar a fatura já?

Sosseguem os desamparados da terceira via e os que passam mal só de pensar que para derrotar Bolsonaro terão de votar em Lula: esta eleição só será decidida no segundo turno.

É o que preveem todos os oráculos da política. A não ser que Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet se desidratem e a eleição acabe no primeiro turno com a vitória de Lula ou de Bolsonaro.

Por que não com a de Bolsonaro? Sim, nesse caso, poderia ser com a vitória nele. Ainda faltam 20 dias.

Fonte: Metrópoles