POLÍTICA

Como emendas de Flávio Bolsonaro financiaram ONGs fantasmas

Emendas parlamentares indicadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foram utilizadas para financiar pagamentos a uma entidade classificada pela Receita Federal como “inexistente de fato” e a empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeitas de irregularidades em licitações. O levantamento foi realizado pelo UOL e divulgado pelo Diário do Centro do Mundo nesta quinta-feira (1º).

Desde 2020, Flávio Bolsonaro teve mais de R$ 300 milhões reservados no Orçamento federal para emendas. Um dos casos envolve o Instituto de Medicina e Projeto (IMP), que recebeu R$ 666 mil em agosto de 2025 por meio de uma emenda de R$ 3,1 milhões destinada à atenção básica de saúde de Mesquita, na Baixada Fluminense.

Em junho de 2026, a Receita Federal classificou o IMP como “inexistente de fato”. Segundo documento do órgão, foram identificados elementos que apontariam para a constituição da empresa com finalidade de fraude fiscal, inclusive em benefício de outras empresas. O instituto também é alvo de análise do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ).

Entre 2019 e o fim de 2024, a Prefeitura de Mesquita firmou contratos superiores a R$ 580 milhões com o instituto para a gestão de serviços de saúde. Em decisão de 2025, o TCE-RJ apontou, entre outros pontos, ausência de estudos técnicos antes da transferência da gestão e indícios de conluio na concorrência vencida pelo IMP.

O tribunal também registrou que uma pessoa cujos dados apareciam em documentos da entidade estava morta desde 2017. Após processo administrativo, a Prefeitura de Mesquita rescindiu os contratos, aplicou multa de R$ 3 milhões e declarou o instituto inidôneo por dois anos. O caso foi encaminhado ao Ministério Público.

Empresas investigadas pela PF também receberam recursos

Outro caso envolve recursos destinados à compra de equipamentos de proteção balística para a Polícia Militar do Rio de Janeiro. A empresa Glágio do Brasil recebeu R$ 569 mil em convênios que contaram com recursos de emendas de Flávio Bolsonaro. A Inbra-Tecnologia recebeu outros R$ 1,1 milhão no mesmo convênio.

As duas empresas foram alvo da Operação Perfídia, deflagrada pela Polícia Federal em 2023. A investigação apura suspeitas de combinação de contratos públicos para equipamentos de proteção balística, incluindo possível alternância de vitórias em licitações. A apuração permanece sob sigilo.

Outros repasses também entraram no levantamento

A reportagem também cita uma emenda de R$ 4 milhões, destinada em 2025 a um projeto esportivo relacionado ao Vasco da Gama, que passou a ser analisada pela Controladoria-Geral da União (CGU). Segundo o levantamento, R$ 684 mil, equivalentes a 93% dos gastos registrados até então, foram pagos a um único fornecedor de materiais esportivos.

Outro repasse, de aproximadamente R$ 200 mil, foi destinado ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), para um projeto esportivo em Taquara, no Rio de Janeiro. Mensagens reveladas pelo Estadão mostram que Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, tratou da liberação da emenda com uma assessora de Flávio. Calixto foi condenado no processo relacionado ao assassinato da vereadora Marielle Franco.

Em Resende (RJ), nove pagamentos que somaram R$ 6,61 milhões foram feitos à empresa Valle Sul para obras de revitalização do aeroporto municipal. Segundo reportagem da revista piauí, citada pelo UOL, máquinas da empresa foram posteriormente flagradas operando em uma propriedade particular pertencente a Renato Araújo, descrito como amigo de Flávio Bolsonaro.

Flávio afirma que não escolhe empresas

Procurado pela reportagem, Flávio Bolsonaro afirmou que seu gabinete não indica as empresas que recebem recursos das emendas. Segundo o senador, a atuação parlamentar se limita à indicação dos recursos, enquanto as contratações são responsabilidade dos órgãos beneficiários.

Flávio também declarou que eventuais irregularidades devem ser investigadas pelos órgãos de controle responsáveis. A Prefeitura de Mesquita apresentou posicionamento semelhante e afirmou que a escolha das empresas responsáveis pela execução dos serviços compete ao município.

Com informações do DCM

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