Ipirá já foi de tudo um pouco: foi terra do Criador, com natureza viva, solta e leve. Com cheiro de alecrim e canto sinfônico do canário da terra, do bem-te-vi e do colorido sofrê, com a marcação de cuíca da rola fogo-pagou.

A caatinga extensa e um santuário de mata. Com DNA protocolado: caatinga dos pés à cabeça e coração de mata.

Veredas, caminhos e estradas abriram a passagem e rasgaram a vegetação entrelaçada em ramagens, espinhos, galhos e troncos distorcidos formando uma rede de veias capilares compridas e estendidas por todo território. Caminhos de formigamento humano em busca de uma toca.

Virou terra de índio. Terra do encantamento, da alegria e da felicidade. Uma vivência coletiva, que se esvaiu de forma rigorosa na sua essência, pela intolerância, soberba e violência das armas e da ideologia que vinha nas costas, em capangas e alforjes. Uma homenagem aos paiaiás.

Os rastros do gado bovino foram deixando suas marcas no chão, fosse lama ou terra dura. Estrumes foram fertilizando o solo; o berro era a marca sonora de um ‘buzinaço’ e o boiado marcava a impregnação de um traço cultural duradouro, que desembocaria no samba boiadeiro em suas múltiplas nuanças.

A poeira levantada cobria o ambiente com uma fuligem minúscula e grudenta de barro, impregnando folhas e ramas. À toque de cavalo formavam-se os currais de gado. Currais e ferrão; chicote e brida; amarras e troncos. Tudo é válido para se domesticar a natureza rebelde, que pinota, berra e geme.

Os negros fugiam do cativeiro mantido com açoite e tronco, que os atormentavam no litoral. Procuravam, nessas entradas pelo interior à dentro, uma liberdade perdida. Aqui o quilombo ganhava raízes. Uma lição que não pode ser esquecida. Um salve ao povo banto, iorubas e gegês.

O bode foi a figura altiva que aportou nessas paragens. Com simpatia cativante, era inquieto, irreverente e buliçoso, assim sendo, podemos dizer que foi o rei da caatinga.

Numa lição de sobrevivência sem comparação, postou-se com uma nobreza exemplar e digna de reverência do catingueiro na sua imensa gratidão, que determinou a questão social de maior relevância de nosso município: a Questão do Pé-alto. Viva o bode da caatinga! Viva o catingueiro!

Foi curral e virou fazenda; aldeia, povoado e freguesia. De vila para cidade, uma questão de décadas. Da intendência à prefeitura, uma viagem.

O tecido social foi vasto, com complexa engrenagem formatada por contradições. Aqui, tivemos de tudo: sesmeiro e meeiro; fazendeiro e rendeiro. No trabalho do dia-a-dia: sapateiro, alfaiate, marceneiro, padeiro, carpinteiro, barbeiro e o que a necessidade induzisse. Na lida da vida cotidiana com professor, burocrata e profissional liberal. A classe operária se apresentou com a fábrica calçadista aqui e a burguesia, dona da fábrica, na casa do chapéu.

A classe dominante boçal na sua soberba temporal: fazendeiros, coronéis, caciques (profissionais liberais que comandam o poder político no município). Trabalhadores braçais na sua simplicidade vagam como massa de manobra pelo andar de cima do sobrado.

A história de nossa gente é muito mais do que pensam algumas cabeças do poder municipal. Onde fica o Marco Zero da nossa cidade?

Aquela casa de adobe, com o fifó de Itú, colocada na Praça da Bandeira não tem nada a ver com nada. O povoamento não começou nesta localidade. Uma alegoria dos festejos juninos, que insiste em ser uma matéria-prima arqueológica, com o caráter de testemunho material da história. Não o é! Nem como genérico de péssima qualidade essa coisa horrenda funciona. Beleza de semana de São João, nada mais.

A formação da Praça da Bandeira foi fruto da comercialização com participação de vaqueiros, tropeiros e roceiros. A fazenda do Pé da Serra não ficava nesta localidade. As diversas fazendas estavam pontilhadas em várias localidades. Por incrível que pareça, aquela casa de adobe nunca foi ali, naquele local, naquela praça.

O Marco Zero da cidade é resultado da atividade comercial e da concentração das principais instalações religiosas, sede da igreja e casa paroquial. Com o tempo, da segurança, quartel e cadeia pública; o prédio da intendência, que abrangia Câmara de Vereadores, Intendência, juizado, cartórios e salão para solenidades, tribunal do júri e festejos.

Os setores dominantes na política de Ipirá tentam impor até seus equívocos históricos como se verdade fosse, de forma a garantir e reproduzir seus interesses oligárquicos de classe dominante diante de uma classe trabalhadora oprimida. Na receita consta a amnésia histórica.

Ipirá perdeu o seu Registro de Nascimento. Faz 167 anos que o município de Ipirá tirou sua Carteira de Identidade, com a sua emancipação política. Às vezes, o nosso silêncio é um protesto contra o descaso e a indiferença diante da nossa história.

É uma história que está em construção e será construída, elaborada e reelaborada por muitas cabeças. Muitos relataram os fatos históricos. Dilemar Costa Santos não pode ser esquecido.

Eu dei minha contribuição, com o livro A PRAÇA DA BANDEIRA E OUTRAS BANDEIRAS, que você pode adquiri-lo no Amazon. com. no formato virtual, com uma galeria de fotografias. Eu agradeço o seu interesse e apreço.

Aguardem o trabalho analítico, que será lançado em breve, feito por um ipiraense da região de Coração de Maria, chamado Alberto Souza, que foi vereador na cidade de São Bernardo do Campo em São Paulo.

É necessário que a população de Ipirá procure saber da bonita, importante e instigante história da nossa gente neste pedaço do semi-árido baiano.

Escrito por Agildo Barreto