A dívida trabalhista indenizatória total da fábrica de calçados, que foi embora, com todos os seus operários (agora, inventaram uma nova nomenclatura, colaboradores) na planta de produção na cidade de Ipirá ficou em 20 milhões de reais (dado apresentado na última sessão 7/5/24 da Câmara de Vereadores de Ipirá).

Nessa novela de puxa e estica, vai ou não vai, terminou indo, apareceu a empresa A, que deu 20 milhões de reais pelo equipamento, em Ipirá, da fábrica que foi embora, esta não aceitou. Esta cifra quitaria a dívida trabalhista.


Foi para leilão. Apareceu uma empresa B e comprou por 11 milhões de reais todo o equipamento que era para ser vendido por 20 milhões de reais. Esta cifra não dá para quitar a dívida trabalhista.

Qual foi o arranjo que fizeram? Os trabalhadores perderão metade de sua indenização para livrar a cara da empresa que foi embora e salvar uma banda cara da que está chegando, porque não será preciso pagar o passivo deixado pela fábrica que foi embora.

Quem tomou no fiofó? Os operários (as). Nesse acordo, quem tinha 20 anos perdeu dez anos. Quem tinha 2 anos perdeu um ano. Perdeu para quem? Perdeu para a burguesia que explora esse ramo de atividade calçadista. A fábrica que foi embora não pagou e a que vem aí não tomou conhecimento dessa dívida. Os donos (burguesia) se safaram.

O que faltou? Faltou a classe operária invadir e ocupar a fábrica para chamar a atenção pública e acordar a Justiça para que seus direitos fossem garantidos.

E agora? Falaram até em 300 reais para o operário pagar ao Jurídico do Sindicato para ter direito à ação. Os vereadores fizeram as contas e 300 reais x 1000 operários deu 300 mil reais. Entrou dinheiro na jogada é problema.

Ah, mas isso aí é para o operário não sindicalizado! Sim, vamos colocar o ponto onde tem que ser colocado. Como é que fica o operário (a) sindicalizado que não paga nada para a Ação na Justiça, mas que perderá metade dos seus direitos no ACORDO realizado? Ficou no prejuízo e grande prejuízo.

“Mas ninguém trabalha de graça!” É verdade. A equipe jurídica recebe todo mês, desde quando foi contratada, e muitas vezes, o trabalho significativo é o que está posto no momento, sendo que o aproveitamento de uma situação para colocar o facão no pescoço, abre a possibilidade de ser tido como um oportunismo evidente.  Não se marcha só com os seus numa caminhada coletiva, então pulverize e abra as porteiras para que os colaboradores (e não operários) encontrem o melhor acordo para si.

Ipirá, com esse comando e domínio oligárquico se torna um município interessante. Perdeu 200 empregos para o Bravo no setor de calçado e, simplesmente, relativizaram: “não tem nada não, foi só um galpão!” “isso aí representa muito pouco!”

Ipirá perdeu uma fábrica de calçados (a segunda do Brasil) de 1200 empregos diretos e parece que nada aconteceu. A estrutura política oligárquica pouco se abalou. Também, quase nada poderia fazer. O Sindical badalou praticamente sozinho. Ipirá não se deu conta do prejuízo que isso representa.

Ipirá adora uma promessa, inclusive já se acostumou com isso, badalam que Ipirá vai receber uma fábrica de calçados de 150 empregos. Colocam isso como uma coisa grandiosa e espetacular. Isso representa menos do que o galpão que foi para o Bravo. “Ah, mas daqui a x anos (dez anos) ela estará com 2000 empregados!” Não esqueçam, que a que foi embora era a segunda do Brasil.

Essa fábrica que dizem que está chegando com 150 empregos não tem a categoria da que foi embora. Estão colocando a ‘possibilidade de’; inclusive, teve vereador que falou em fatiar a planta da fábrica em Ipirá para diversas (várias) fabriquetas. Estão de brincadeira. Não estão acreditando que virá; se vir será do tamanho de um galpão (os outros galpões ficarão inativos por tempo indeterminado, que só Deus sabe).

Tem mais, a fábrica só virá quando chegar; enquanto isso não passa de promessa de governo estadual e municipal. E tem mais! Do jeito que estão falando é muita conversa mole. Se fizerem o que o vereador falou, vai ficar um monte de fabriqueta; junta tudo, faz um fardo, que não dá uma banda da fábrica que foi embora.

A fábrica que foi embora faliu. Nenhum governo tem culpa. A coisa foi interna, no campo administrativo. Desviaram o capital da empresa. Muita mordomia; investimento em carro de corrida; diretor colocando (Ferrari ou Camaro) num guindaste para presentear a amante numa cobertura de um prédio; etc e tal. Qual é a empresa que vai suportar um esbanjamento desse? Está para nascer. Quem pagou e bancou essa orgia financeira? A classe operária de Ipirá contribuiu com seu suor para isso.

Esta fábrica que foi embora faliu bem falida, de perder até as cuecas? Não e não. Ela perdeu os anéis para não perder os dedos. Sacrificou parte do patrimônio, passou o pau em alguns passivos (caso de Ipirá) para manter um patrimônio maior do que toda a riqueza dos 1200 operários (as) de Ipirá e bem superior (bem superior mesmo) aos 20 milhões de reais que eles ficaram devendo aos operários daqui.

O vacilo dos operários da ‘fábrica que foi embora’ foi não ter entrado em contato e conversado com o advogado Carlinhos Oliveira (Carlinhos de Bartolomeu), um dos melhores advogados trabalhistas da Bahia, que por incrível que pareça, foi um dos grandes incentivadores para a formação e fundação do Sindical em Ipirá. Operário luta; colaborador não quer ver o patrão na pirambeira.

Não custa recordar. Ipirá era a segunda maior bacia leiteira da Bahia. A fama de Ipirá ia longe. Ao ponto da multinacional Nestlé vir para cá. Tentou, fez de tudo, não deu certo, bateu o carimbo e foi embora. Para o produtor de leite ipiraense foi o mesmo de não ter acontecido nada demais.

Hoje, a bacia leiteira não chega nem ao chulé do que foi um dia. Não tem uma Nestlé, mas tem muitos pequenos compradores de leite, até para fazer queijo, que nem a prefeitura deu uma autorização necessária para eles venderem o produto ao comércio. As oligarquias dizem que Ipirá não perdeu nada, só faz ganhar.

Infelizmente, Ipirá é assim: a nossa Ipirá vai perdendo o que conquistou um dia; suas oligarquias com seus apaniguados continuam afirmando que Ipirá é uma GRANDE e próspera cidade e o povo indiferente ao que vai acontecendo não faz questão do que está por vir. Vida que segue.

Escrito por Agildo Barreto

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