Católicos conservadores na Espanha reagiram negativamente esta semana a uma imagem de Jesus criada para um cartaz de promoção da Semana Santa em Sevilha. A imagem foi descrita como homoerótica, afeminada, atraente pelo mau-gosto e sexualizada.

Imagens religiosas são comuns na cultura popular ocidental, encontradas em videoclipes  peças de moda, programas de TV e publicidade.

Em seu livro Admen and Eve, a escritora Katie Edwards observa que “Eva gera bastante dinheiro”, apontando o uso frequente da personagem bíblica em campanhas de marketing de produtos como cidra, cereais, cigarros e perfumes.

Sou autor de uma pesquisa analisando representações de Moisés na publicidade. A figura de um profeta idoso, masculino e portador de deficiência, conforme descrito no livro do Êxodo, tem sido substituída por mulheres jovens e com pouca roupa diante do Mar Vermelho se abrindo em vários anúncios, incluindo um para protetor solar.

Embora o uso de personagens religiosos como Eva e Moisés muitas vezes não chame tanta atenção, os anúncios que usam a imagem de Jesus frequentemente causam clamor.

Há exemplos recentes de reação contra o uso de sua imagem na publicidade. Alguns deles são as campanhas dos salgadinhos veganos da rede britânica Greggs, outro de telefones celulares Samsung  e até uma propaganda de jeans.

Reação contra imagem de Jesus na campanha de Sevilha não é inédita

O atual ultraje na Espanha tem precedentes. Houve revolta contra imagens explícitas de Jesus usadas em filmes sobre sua vida, como o filme “blasfêmo” de Monty Python, Life of Brian (1979), e The Passion of the Christ (2004), de Mel Gibson, que retrata a crucificação como um sacrifício sangrento.

Algumas interpretações da crucificação foram implícitas, como a caminhada da vergonha de Cersei em Game of Thrones, que ecoa a Via Dolorosa — o caminho que Jesus percorreu até a crucificação.

Certas vertentes do cristianismo, como o pentecostalismo e o metodismo, não se envolvem com ícones ou imagens de Deus, seguindo sua proibição no livro de Êxodo.

No entanto, os ícones têm uma longa e significativa história nas tradições ortodoxas e católicas romanas, como objetos dignos de veneração.

As representações de Jesus são prolíficas nesse sentido. A representação da crucificação – seu corpo seminu e crucificado – adorna igrejas e adereços em todo o mundo.

É tão comum que nos tornamos quase insensíveis à violência retratada nessas imagens. Elas geralmente estão nas salas de aula das crianças que frequentam escolas católicas. 

Cristianismo e o corpo de Jesus Cristo 

O livro do crítico de arte Leo Steinberg, The Sexuality of Christ in Renaissance Art and Modern Oblivion (1983), mostra como as imagens de crucificação já foram bastante explícitas, já que historicamente muitas não ofereciam a Jesus a gentileza de uma tanga.

O corpo de Jesus sempre foi um ponto de controvérsia, apesar de o cristianismo ser uma religião que se preocupa bastante com os corpos.

O cristianismo é uma religião encarnada, onde as crenças não são simplesmente espirituais, mas são promulgadas através, por e sobre o corpo.

Pense em concepções imaculadas e nascimentos virgens. Sacramentos como o batismo (imersão na água), a unção e a Eucaristia envolvem movimentos físicos (orar, curvar-se) e os sentidos (degustação, cheiro), ao lado de símbolos visuais e sagrados.

Deus se tornando carne – a encarnação – é a base dos entendimentos cristãos de Jesus. No catolicismo romano, há uma crença na transsubstanciação, de que Cristo está presente no consumo do pão e do vinho (representando corpo e sangue) durante a santa comunhão.

O pão, ou hóstia, literalmente se torna o corpo de Cristo para consumo humano, seguindo a instrução de Jesus “peguem isso e coma, este é o meu corpo”. Em seu livro Indecent Theology (2000), a falecida teóloga queer Marcella Althaus-Reid descreve tal atividade como “canibalística”.

No meu livro A Bíblia e a Violência Sexual Contra os Homens (2021), analiso como Jesus é apresentado como assexuado, tanto na Bíblia quanto na teologia cristã. A Bíblia conta muito pouco sobre a sexualidade de Jesus, e para um judeu na casa dos trinta anos, a ausência de esposa e família teria chamado a atenção. 

A assexualidade parece ser um assunto de família. Sugere-se que seus pais terrenos, a virgem Maria e José, eram ambos abstinentes ou celibatários.

Tal celibato é proscrito para sacerdotes no catolicismo romano, e o casamento é abordado na carta de Paulo aos Coríntios, onde ele diz que “é bom para eles permanecerem solteiros, como eu faço”.

Representação e como ela é recebida 

Aqueles na Espanha que se opuseram a que Jesus fosse retratado como “afeminado” ou “sexualizado” parecem sugerir que há algo errado ou desviante em tais representações.

Globalmente, isso remete ao legado da homofobia em certos cenários cristãos conservadores e ao uso da Bíblia nesse entendimento . O debate continua, mesmo com avanços inclusivos do Papa Francisco em relação à bênção das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Enquanto as controvérsias reinam em torno da imagem de um Jesus “sexualizado” em Sevilha, essa representação tem uma controvérsia mais óbvia que não recebeu atenção.

Jesus, um homem do Oriente Médio de pele escura , foi branqueado. A representação de Jesus como um europeu branco é discutível. O evangelho de Mateus relata que Jesus perguntou: “Quem você diz que eu sou?.

Representações e imagens de Jesus são muitas vezes específicas do contexto e baseadas no contexto. Isso significa que a forma como essas imagens são recebidas também é.

Sobre o autor

Chris Greenough é professor de teologia e pesquisador nos campos de  identidades religiosas contemporâneas, especialmente temas relacionados a gênero, sexo e sexualidade. Ele é o autor dos livros ‘Undoing Theology’, ‘Queer Theologies: the basics’ e ‘The Bible and Sexual Violence Against Men’ (2020, Routledge). 


Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.