O ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Junior afirmou que as Forças Armadas perderam parte da confiança da sociedade durante o governo de Jair Bolsonaro. A avaliação consta de seu novo livro, Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista, e foi apresentada em entrevista sobre os bastidores das pressões por uma ruptura institucional após as eleições de 2022.
Segundo Baptista Junior, a presença de um grande número de militares em cargos do governo e a tentativa de utilizar as Forças Armadas em disputas políticas contribuíram para o desgaste da imagem das instituições. O ex-comandante afirmou que a parcela da população que já tinha uma percepção negativa dos militares aumentou durante o período.
Baptista Junior comandou a Força Aérea Brasileira (FAB) de abril de 2021 até janeiro de 2023. Ele deixou o cargo após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e se tornou uma das principais testemunhas no processo que investigou a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Pressão após derrota eleitoral
No relato, o ex-comandante afirma que os momentos de maior tensão ocorreram em novembro de 2022, quando Bolsonaro e aliados discutiam alternativas para impedir a posse de Lula. Baptista Junior citou especialmente os dias 14, 22 e 24 daquele mês.
De acordo com ele, Bolsonaro acreditava que um suposto erro nas urnas eletrônicas poderia servir de argumento para contestar o resultado eleitoral. O então comandante da Aeronáutica afirmou, porém, que o ex-presidente sabia que não teria unanimidade entre os militares para uma ruptura institucional.
Baptista Junior também relatou que chegou a defender a antecipação da troca dos comandantes das Forças Armadas como forma de deixar claro à sociedade que não haveria ruptura e que os novos chefes seriam escolhidos pelo presidente eleito. A mudança acabou sendo realizada depois da posse de Lula.
Resistência ao golpe
O ex-comandante afirmou que sofreu pressões para aderir à tentativa de ruptura, mas decidiu manter uma posição legalista. Segundo ele, a resistência dos comandantes militares foi fundamental para impedir que a iniciativa avançasse.
Em entrevista, Baptista Junior afirmou que chegou a temer uma ruptura dentro das próprias Forças Armadas, diante das diferentes posições existentes entre os comandos. Ele também declarou que havia risco de confronto e derramamento de sangue caso as manifestações instaladas em frente aos quartéis fossem retiradas à força.
Após os ataques de 8 de janeiro de 2023, o então ex-comandante relatou ter enviado a Bolsonaro uma imagem de uma declaração do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, atribuindo aos militares parte dos erros do ex-presidente. Segundo Baptista Junior, ele afirmou a Bolsonaro que o episódio poderia ter sido encerrado caso o então presidente tivesse reconhecido a derrota e pedido que os manifestantes voltassem para casa.
Recuperação da imagem
Apesar das críticas ao período Bolsonaro, Baptista Junior afirmou acreditar que as Forças Armadas podem recuperar a confiança da população. Para ele, a reconstrução da imagem depende de uma atuação institucional e distante de disputas partidárias.
O ex-comandante defendeu que os militares devem atuar como instituições de Estado, sem assumir posições destinadas a beneficiar determinado político ou grupo. A avaliação ocorre em meio às consequências políticas e institucionais das investigações sobre a tentativa de golpe após as eleições de 2022.
Baptista Junior foi ouvido pelo Supremo Tribunal Federal no processo relacionado à tentativa de ruptura institucional e confirmou a existência de reuniões nas quais foram discutidas medidas para impedir a posse de Lula. Seu relato também apontou a resistência de integrantes das Forças Armadas às propostas apresentadas durante o período.
No livro, o militar detalha esses episódios e sustenta que a atuação das Forças Armadas deve permanecer vinculada à Constituição e às instituições democráticas. Para ele, a recuperação da credibilidade passa justamente pelo afastamento dos militares de projetos políticos e pela preservação de sua função institucional.
Com informações do DCM





