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Um mês sem Léo Lanches: ‘Como meu pai foi morar com Deus?’, pergunta filho de comerciante morto por PM em Salvador

Os gritos que tomaram conta da localidade Lessa Ribeiro, no bairro de São Cristóvão, em Salvador, na noite do dia 23 de julho de 2026, ainda fazem parte da memória de uma comunidade que viu mais um trabalhador perder a vida durante uma suposta ação policial. Leonardo Gil Lima, conhecido como Léo Lanches, tinha 33 anos e acabara de realizar um sonho: quatro dias antes de morrer, abriu a própria lanchonete. 

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Por volta das 20h40, ele foi baleado por uma policial militar que está temporariamente presa. Um mês depois, a esposa, Erica Nascimento, tenta seguir ao lado dos dois filhos enquanto espera pela conclusão das investigações.

Naquela noite, Erica estava em casa com as crianças. Ao BNEWS, ela relata não ouviu os disparos que atingiram o marido. “Eu estava em casa, junto com os meninos”, conta.

Foi uma sobrinha de 12 anos quem chegou para avisar que Léo havia sido atingido. A família e moradores contestaram desde o início a versão de confronto apresentada pelos policiais. Segundo Erica, os tiros que atingiram Léo não foram precedidos por disparos que pudessem ser ouvidos dentro de casa, mesmo com a família estando próxima do local. “A gente nem escutou os disparos que atingiram”. Ela reforçou: “Pois estava em casa ali bem próximo”.

População tentou impedir retirada de Léo

Depois dos disparos, os próprios policiais prestaram socorro ao comerciante. Quando Erica chegou ao local, eles ainda tentavam atendê-lo. A população, revoltada, inicialmente não queria permitir que os agentes deixassem a área com Léo.

“Quando eu cheguei lá, eles ainda estavam lá, no desespero deles tentando dar socorro, a população não queria porque até então já estava sem vida no chão, e a população não queria deixar eles vazarem. Aí, quando eu cheguei eu fui pedindo para o pessoal deixar dar socorro e eles levaram”, recorda.

Léo chegou a ser encaminhado para o Hospital Geral Menandro de Faria, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, mas não resistiu aos ferimentos.

A morte provocou revolta em São Cristóvão. Moradores protestaram, vias foram interditadas, houve queima de ônibus e o transporte público chegou a ser suspenso temporariamente na região.

Quatro dias de um sonho

A morte interrompeu um projeto que havia começado poucos dias antes. Léo tinha acabado de abrir a própria lanchonete. Para Erica, aquela conquista representava o resultado de um período de esforço do casal e também a possibilidade de mudar de casa.

“Ele estava feliz. Era uma nova conquista que a gente estava correndo atrás já há um tempo, e ele estava feliz. Estava esperando só abrir a lanchonete que a gente alugou uma casa porque a gente queria sair de lá, e estava esperando só abrir a lanchonete para poder alugar uma casa por causa da preocupação com a segurança”, diz.

O sonho, porém, não continuou depois da morte de Léo. A lanchonete está fechada. Era naquele local que Erica e o marido produziam os lanches.

“A lanchonete está fechada porque o local onde aconteceu foi em frente onde eu produzia os lanches, então, eu não tenho condição nenhuma de voltar. A lanchonete está parada”, afirma.

A pergunta que uma criança de quatro anos repete

Em casa, a ausência ganhou outra dimensão. Léo deixou dois filhos, uma menina de nove anos e um menino de quatro. A filha mais velha presenciou parte da situação no dia da morte e, segundo Erica, ainda chora quando ouve qualquer coisa relacionada ao pai.

“A menina ela chegou, ela viu. Ela tem 9 anos… Todos estão inconformados. E quando escuta alguém falar qualquer coisa do pai, chora, a gente tem que ficar explicando toda hora. A pior parte é explicar que o pai dela não vai voltar mais. O menor, ele não entende muito. Ele me pergunta o tempo todo como foi que o pai se machucou, como foi que ele foi morar com Deus. E aí? Eu respondo o quê para uma criança?”, lamenta a viúva.

As perguntas se repetem. E, para responder, ela precisa conter a própria dor. “Eu não tenho um respostas, né? E aí a gente vai tentando ali, explicar da forma que a gente vai achando melhor, e a engolir o choro… É difícil… Eles choram, eles pergunta pelo pai e eu não posso ao menos chorar”, conta.

Comunidade mantém a família de pé

Se dentro de casa a ausência de Léo é sentida diariamente, do lado de fora Erica encontrou apoio nos moradores de São Cristóvão. Segundo ela, a comunidade tem ajudado a família desde os primeiros dias após a morte, com alimentos, contribuições financeiras e mobilizações nas ruas.

“A comunidade, sem dúvidas, é quem mais está me apoiando até agora. A comunidade que tem segurado em minha mão, desde o início, todo mundo ajuda como pode, indo para ruas, alguns me ajudaram com alimentos, alguns me ajudaram com a vaquinha. Então, a comunidade é que realmente tá segurando a minha mão. O apoio todo que eu estou tendo é só da comunidade aqui, do pessoal que tá se reunindo para me ajudar”, diz bastante agradecida.

Um mês depois, a memória do comerciante permanece ligada ao bairro onde trabalhava e vivia.

Prisão de policial foi recebida como “vitória”

A investigação sobre a morte avançou nas semanas seguintes. De acordo com a Polícia Civil, o inquérito foi instaurado na 1ª Delegacia de Homicídios (DH/Atlântico), com apoio da Agência de Inteligência do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

As equipes realizaram diligências no local, ouviram testemunhas, analisaram imagens de câmeras corporais e solicitaram perícias complementares.

Ainda segundo a Polícia Civil, o resultado do laudo pericial do Departamento de Polícia Técnica (DPT) permitiu identificar a arma de onde partiu o disparo que matou Léo. Com os elementos reunidos durante a investigação, a corporação representou pela prisão temporária de uma soldado da Polícia Militar investigada pelo homicídio.

O mandado foi cumprido no dia 4 de agosto, no bairro da Pituba, durante uma ação integrada das Polícias Civil e Militar. A investigada foi encaminhada para uma unidade prisional militar, onde permanece à disposição da Justiça.

Para Erica, a prisão representou uma vitória da família. “Na hora foi um momento de muita felicidade. Porque até então ela estava solta, na rua. E aí quando a gente teve a notícia, pra gente foi uma vitória. Uma das nossas lutas foi essa”.

A Polícia Civil informou ao BNews, nesta semana em que o caso completa pouco mais de um mês, que o inquérito ainda está em andamento na 1ª DH/Atlântico. Além disso, afirmou que não pode fornecer mais detalhes neste momento para não interferir nas investigações.

O último posicionamento oficial também apontava que a apuração continua para esclarecer a motivação e a dinâmica do homicídio, além de identificar outros envolvidos.

Família ainda espera conclusão do inquérito

Dias após a morte, a família se reuniu com integrantes da cúpula da segurança pública do Estado. Um mês depois, Erica diz acreditar que a investigação está avançando, embora aguarde a conclusão do inquérito.

“Até onde eu sei o processo está andando. O inquérito a gente está esperando finalizar”, diz.

A principal preocupação agora é o futuro da investigação e a situação da policial presa temporariamente.

“O principal é que o inquérito finalize e que a prisão dela seja mantida, porque por enquanto está temporária. Então, a qualquer momento ela pode ser solta”, afirma.

Enquanto aguarda os próximos passos do caso, Erica continua sem trabalhar. A lanchonete que deveria representar o início de uma nova fase da família permanece fechada.

“A gente está aí, indo devagarzinho, por enquanto eu estou sem trabalhar ainda. Mas, por enquanto, é isso aí… Tentando seguir devagarzinho”.

Com informações do Bnews

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