Dez anos depois de sobreviver a um ataque com 17 facadas do ex-companheiro em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Miriam Maria da Silva, hoje com 49 anos, se considera uma sobrevivente. Merendeira escolar, ela precisou enfrentar uma semana de internação, tratamento psicológico e psiquiátrico, medo e pesadelos antes de reconstruir a própria vida ao lado dos filhos.
Antes das facadas, vieram os sinais
Miriam conta ao G1 que conheceu o ex-companheiro quando ele enfrentava dificuldades financeiras. Ela tentou ajudá-lo e o levou para dentro de casa. Com o tempo, passou a sustentar o homem e assumir as despesas da residência.
Segundo Miriam, o relacionamento era marcado por discussões frequentes. Hoje, ela reconhece esses episódios como sinais de alerta.
“Isso já era sinal de que aquele relacionamento não ia dar certo. Mas mesmo assim eu continuei insistindo.”
O rompimento aconteceu depois de uma agressão. Miriam relata que o ex avançou contra ela com um cabo de vassoura. Depois disso, pediu que ele deixasse a casa e procurou a delegacia.
As ameaças, segundo ela, ficaram mais intensas.
Três meses de ameaças
Miriam afirma que passou cerca de três meses sendo ameaçada. Em determinado período, chegou a ir ao trabalho escoltada por policiais.
Ela também relata um episódio em que estava em um ônibus lotado quando o ex-companheiro pulou a roleta e foi em sua direção. Segundo Miriam, ninguém a ajudou.
Na época, ela trabalhava em um hotel. Para deixar o serviço, precisava se esconder, chamar transporte por aplicativo ou pedir ajuda para sair pela garagem.
Durante uma semana, não viu mais o ex no caminho do trabalho, no ponto de ônibus ou perto de casa. Ela acreditou que a perseguição havia terminado.
“Graças a Deus me livrei”, lembra.
O ataque aconteceu na rua de casa
O crime ocorreu em julho de 2016. Miriam havia saído para comprar ingredientes para fazer uma panqueca que a filha queria comer.
O mercado estava fechado e ela decidiu voltar para casa a pé. No caminho, encontrou um amigo que ofereceu carona, mas recusou porque já estava perto.
Ao chegar à rua onde morava, viu um carro parado próximo à entrada do imóvel. A residência ficava em um corredor.
Quando entrou no corredor, segundo o relato, o ex-companheiro apareceu armado com uma faca.
Miriam correu, mas caiu no meio da rua. Foi naquele local que aconteceu o ataque.
Ela lembra que o filho, ainda criança, a viu caída. Miriam gritou para que ele corresse. O menino se escondeu e chegou a correr tanto que ninguém conseguia encontrá-lo.
Uma das facadas perfurou o pulmão
Miriam ficou internada durante uma semana. Precisou receber sangue e tratar a perfuração no pulmão, considerada por ela a lesão mais grave.
A recuperação física veio antes da emocional. “Comecei a ter pesadelo à noite. Qualquer pessoa que chegava perto de mim, eu assustava. Precisei passar a tomar remédio. Foi uma luta. Não foi fácil.”
Os filhos também foram afetados pela violência. As filhas, que eram adolescentes na época, passaram a apoiar a mãe dentro de casa. O filho fez acompanhamento psicológico.
Hoje, as filhas continuam cuidadosas com Miriam e querem saber onde ela está, com quem vai sair e quem está conhecendo.
“Hoje em dia é o contrário: eu sou a menina, e elas, a mãe.”
‘Eu não posso me responsabilizar pelo erro do outro’
Durante muito tempo, Miriam se perguntou se poderia ter evitado o ataque. Com o tratamento, o apoio da família e a espiritualidade, passou a entender que não era responsável pela violência cometida contra ela.
“Eu não posso me responsabilizar pelo erro do outro. A gente tem que carregar o que é da gente. Cada um carrega o que é seu.”
Ela também diz que precisou refletir sobre tudo o que havia acontecido para perceber que fez o que podia.
“Eu refleti tudo que aconteceu, a história toda. E falei: gente, em momento algum eu errei. Eu não errei. Eu fiz o meu melhor.”
Espiritualidade ajudou no recomeço
Miriam afirma que recebeu acolhimento quando procurou ajuda na Delegacia da Mulher e no fórum.
Depois do crime, também passou por acompanhamento psicológico e psiquiátrico. A espiritualidade se tornou parte do processo de reconstrução.
Ela conta que, enquanto estava ferida e caída durante o ataque, viu a avó ao lado dela e sentiu sua mão sendo segurada.
“Eu achava que não tinha ninguém nessa vida, tirando meus filhos.”
‘Os sinais estão sempre ali’
Dez anos depois do crime, Miriam afirma que a violência não começou no dia em que levou as facadas.
Para ela, os sinais apareceram antes, nas discussões, ameaças, medo, primeira agressão e palavras em tom elevado.
“Os sinais estão sempre ali. Na primeira agressão, no primeiro tapa, na primeira palavra alta. Aquilo ali já é um sinal.”
Ela reconhece que deixar uma relação violenta pode envolver filhos, dependência financeira, vergonha, medo, ameaças, esperança de mudança e culpa. Mesmo assim, faz um alerta:
“Não aceite agressão dentro de casa. Primeiro grito, não deixa. Saia fora na primeira agressão, porque deixou a primeira, vai acontecer a segunda.”
Dez anos depois
Miriam ainda se assusta quando alguém grita. Em algumas situações, diz que começa a chorar quando uma pessoa altera a voz. Ela afirma, porém, que hoje consegue lidar melhor com as marcas deixadas pela violência.
Também voltou a se relacionar depois de passar um longo período sozinha.
A Lei Maria da Penha, como ficou conhecida a Lei nº 11.340/2006, foi sancionada em 7 de agosto de 2006 e completa 20 anos em agosto.
Miriam define a própria história como a de uma sobrevivente. “Eu nem posso não me considerar uma sobrevivente, porque eu levei 17 facadas. Não é qualquer mulher que passa pelo que eu passei e sai viva.”
“Hoje eu sou mais forte, sou mais guerreira. Estou aí para apoiar, se alguém quiser conversar sobre o assunto.”
Com informações do Bnews





