A Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público deflagraram nesta quinta-feira (17) a Operação Vectura Corrupta, que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte público e no poder público de São Paulo.
A ação prendeu o ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, e também tem como alvo o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil). Segundo os investigadores, mais de 100 nomes de políticos e empresários aparecem relacionados à organização criminosa, entre eles Danilo Marco Morgado Silva, candidato a deputado estadual por São Paulo.
A operação cumpre 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. A investigação aponta ainda que o PCC teria financiado campanhas políticas e exercido controle direto ou indireto sobre 12 empresas de transporte coletivo da capital paulista.
Ex-presidente da SPTrans é preso
Levi dos Santos Oliveira foi preso nesta quinta-feira. Além de ter presidido a SPTrans em 2020, Levi foi secretário de Mobilidade e Trânsito durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Levi chegou à SPTrans em 1991, por meio de seleção pública da antiga Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC). Em janeiro de 2017, assumiu a diretoria de Planejamento de Transporte da empresa.
Segundo os investigadores, Levi não aparecia como interlocutor direto de José Daniel Satilite, conhecido como Alemão e apontado como um dos personagens centrais do esquema. A investigação, porém, afirma que os dois mantiveram encontros periódicos para tratar de interesses do PCC relacionados a empresas de transporte, principalmente após a Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em 2024.
A defesa de Levi afirmou que ele é primário, não possui antecedentes e construiu uma trajetória de serviços públicos em São Paulo.
“O escritório Fernando José da Costa Advogados, que representa o Dr. Levi dos Santos Oliveira, foi surpreendido, na manhã desta quinta-feira, com a notícia de sua prisão. Levi dos Santos Oliveira, primário e sem antecedentes, construiu ao longo de décadas, uma trajetória de relevantes serviços públicos prestados à cidade de São Paulo, atuando na SPTrans, onde se consolidou como referência técnica em sua área. A defesa ainda não teve acesso aos autos, nem às circunstâncias que fundamentaram a medida. Tão logo tenha acesso ao conteúdo da decisão e aos elementos que a embasaram, adotará as medidas jurídicas cabíveis, com confiança nos meios legais para o pronto esclarecimento dos fatos e a revogação de sua segregação.”
Milton Leite é alvo da operação
Milton Leite também é alvo de mandado de prisão. Policiais foram até a residência do ex-vereador, mas não o encontraram. Segundo informações obtidas durante a diligência, Milton estava em casa até a tarde de quarta-feira (16) e teria saído à noite para um compromisso de campanha. Em nota, Milton afirmou que estava viajando e negou estar foragido.
“Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”.
Milton deixou a vida pública no ano passado, após sete mandatos como vereador e quatro períodos à frente da Câmara Municipal de São Paulo. Atualmente, preside o União Brasil na cidade.
Em julho, foi eleito presidente estadual da Federação União Progressista (UP), formada pelo União Brasil e pelo Progressistas (PP).
Segundo a investigação, decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política de Milton. Os investigadores afirmam que essa conclusão foi baseada na análise de interceptações envolvendo operadores e em elementos de outras apurações.
O pedido que embasou a operação também cita Milton como responsável direto pela operação de algumas empresas que, segundo a investigação, seriam controladas pela facção. O documento menciona ainda declarações de policiais militares prestadas em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais Milton seria o dono de fato da Transwolff.
Mais de 100 nomes aparecem na investigação
A nova fase identificou mais de 100 nomes de políticos e empresários relacionados ao esquema investigado pela Polícia Civil. Entre eles está Danilo Marco Morgado Silva, que disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e atualmente era candidato a deputado estadual, mas teve o registro cassado.
Danilo também foi alvo de busca e apreensão na Operação Decurio. Segundo a Polícia Civil, a investigação atual identificou um “forte vínculo” dele com integrantes do PCC e indícios de que a campanha à Prefeitura de Praia Grande teria sido financiada pela organização criminosa. Danilo foi preso nesta quinta-feira (17).
12 empresas de ônibus estão na mira
A investigação identificou 12 empresas de transporte coletivo de passageiros que, segundo a Polícia Civil, seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC:
Viação Transcap
Alfa Rodobus
Transwolff
A2 Transportes
Imperial Transportes
Move Bus
Pêssego Transportes
Allianz Transportes
Transunião
Qualibus Transportes
Norte Bus
Spencer Transportes
Parte das empresas já havia aparecido em investigações anteriores sobre a atuação do PCC no setor.
A Transwolff foi alvo da Operação Fim da Linha. O então presidente da empresa, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, foi preso sob suspeita de vínculos com a facção.
A investigação também cita Alfa Rodobus e Sancetur, que assumiram operações anteriormente realizadas por Transwolff e UpBus após a operação de 2024.
Segundo a Polícia Civil, os elementos reunidos indicam possível infiltração do PCC no sistema de transporte público da capital, com participação de integrantes e intermediários da organização em empresas e procedimentos licitatórios.
‘Sintonia dos Gravatas’ também é investigada
Outra frente da Operação Vectura Corrupta apura a chamada “Sintonia dos Gravatas”, núcleo formado por advogados que, segundo a polícia, atuaria diretamente em benefício do PCC, ultrapassando os limites do exercício profissional da advocacia.
Entre os investigados estão Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu.
De acordo com a investigação, escritórios e contas bancárias teriam sido usados para reuniões, movimentações financeiras e outras atividades de interesse da organização criminosa.
José Daniel Satilite, conhecido como Alemão, é apontado como o principal investigado desta fase. A Polícia Civil afirma que ele integra o PCC e atuaria como intermediário entre empresários, advogados, políticos, pessoas próximas a políticos e integrantes da facção.
Operação é terceira fase de investigação
A Operação Vectura Corrupta é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.
A investigação começou em agosto de 2024, com a Operação Decurio, após a apreensão de 30 quilos de drogas em Itaquaquecetuba. A partir da extração de dados do celular da mulher de um dos líderes da facção, os investigadores identificaram integrantes das chamadas “Sintonia Restrita” e “Sintonia dos Gravatas”.
Segundo a polícia, os dados também revelaram um projeto de infiltração do crime organizado nas eleições municipais de 2024.
Em abril de 2026, a Operação Contaminatio investigou uma fintech que, segundo a apuração, era utilizada pelo PCC e pretendia entrar em administrações municipais para gerenciar o recebimento de tributos e taxas. A etapa também investigou uma rede de doleiros e operadores de criptoativos utilizada na lavagem de dinheiro e resultou na prisão de um ex-vereador de Santo André.
A análise do material apreendido nas fases anteriores levou os investigadores às novas frentes: a influência do PCC no transporte coletivo e o financiamento de campanhas eleitorais.
Com informações do Bnews





