FINANÇAS

Golpe das bets: sites falsos prometem até R$ 3 mil e cobram taxa para liberar saque

Uma transferência de R$ 20 pode parecer pouco dinheiro. É justamente esse o valor usado por uma rede de falsas bets para atrair usuários com a promessa de prêmios que chegam a R$ 3 mil. O problema aparece quando a vítima tenta sacar: o site exige uma nova transferência para liberar o suposto ganho, mas o pagamento não resolve a pendência.

O esquema foi identificado pela empresa brasileira de cibersegurança ZenoX em uma investigação batizada de “Saque Fantasma”. Os pesquisadores encontraram três sites ligados à mesma estrutura, centenas de contas, milhares de cadastros e informações pessoais de usuários.

A descoberta ocorre em um momento especialmente sensível para o mercado de bets no país. Em setembro de 2026, uma medida provisória determinou o fim da exploração, da oferta, da intermediação e da publicidade de apostas de quota fixa no Brasil. Desde 6 de outubro, sites e aplicativos destinados a essa atividade deveriam estar indisponíveis.

A promessa começa com um depósito de R$ 20

O golpe é apresentado como uma oportunidade de ganhar muito dinheiro com pouco investimento.

Em uma das abordagens analisadas pela ZenoX, o usuário era orientado a fazer um Pix de R$ 20, enviar o comprovante e informar a chave Pix. A recompensa anunciada chegava a R$ 2 mil.

Depois do pagamento, a pessoa era encaminhada para uma plataforma com aparência semelhante à de uma casa de apostas. Jogos, valores disponíveis e registros de supostos ganhadores ajudavam a criar a impressão de que se tratava de um serviço real.

A estratégia não dependia apenas da promessa de dinheiro. A própria página era construída para convencer o visitante de que outras pessoas já estavam recebendo valores elevados.

Entre os recursos encontrados estavam listas de supostos saques recentes, com nomes parcialmente ocultos e quantias que podiam chegar a milhares de reais.

O problema aparece na hora de retirar o dinheiro
Depois de participar da plataforma, o usuário vê um saldo aparentemente muito superior ao valor que depositou.

É nesse momento que surge uma nova exigência.

Para sacar, a plataforma informa que é necessário pagar uma taxa de R$ 30. O pagamento é apresentado por meio de um QR Code.

A análise técnica feita pela ZenoX encontrou um problema justamente nessa etapa. Em determinadas condições, o próprio navegador gerava o código usado para a cobrança, enquanto o sistema responsável pela confirmação não conseguia registrar o pagamento.

O resultado era previsível: mesmo depois da tentativa de pagamento, o saque permanecia pendente.

Na base analisada pelos pesquisadores, 157 das 231 transações encontradas estavam nessa situação.

A vítima podia gerar outro código e tentar novamente, mas continuava sem conseguir retirar o dinheiro.

Mais de 400 contas aparecem em uma das bases
A dimensão da operação também chama atenção.

Uma das bases examinadas pela ZenoX reunia 415 contas de usuários e 231 transações de depósito. A maior parte dos pagamentos era de baixo valor: 92% estavam entre R$ 20 e R$ 30.

Ainda segundo a investigação, 68% das transações permaneciam pendentes.

Um painel interno analisado pelos pesquisadores registrava R$ 107.519 em saldo acumulado entre as contas desde dezembro de 2025.

O número não representa necessariamente dinheiro efetivamente disponível para saque. Trata-se dos valores registrados no sistema analisado pela empresa.

Outra plataforma associada à estrutura tinha mais de 3.600 contas cadastradas. Nessa base, foram encontrados dados como nomes, números de telefone e endereços de e-mail.

Três domínios foram relacionados ao mesmo esquema
A investigação relacionou os domínios MAXXBET7K, MAXBTT7K e NEWWBET7K à mesma estrutura.

De acordo com a ZenoX, os sites apresentavam características em comum na infraestrutura, no código e no funcionamento do sistema de cobrança.

Os pesquisadores também encontraram credenciais de produção expostas no código público de um dos sites e uma vulnerabilidade que permitia aumentar os privilégios de uma conta durante o cadastro.

Essas falhas deram acesso à estrutura interna das plataformas e permitiram analisar informações que não ficavam visíveis para o usuário comum.

A investigação técnica, entretanto, não identificou publicamente os responsáveis pelos sites. Portanto, os nomes dos domínios e os vínculos apontados pela ZenoX não devem ser tratados como uma condenação ou como prova de autoria criminal.

Redes sociais ajudam a dar aparência de legitimidade
A divulgação não ficava restrita aos sites.

Instagram, TikTok e Telegram eram utilizados para apresentar as ofertas e direcionar usuários para as plataformas.

Uma das contas relacionadas ao esquema no TikTok tinha mais de 126 mil seguidores e 2,5 milhões de curtidas.

O número ajuda a explicar um dos elementos que tornam esse tipo de golpe convincente. Para quem recebe uma oferta pela rede social, milhares de seguidores e uma grande quantidade de interações podem funcionar como uma espécie de selo informal de credibilidade.

Não são.

Uma conta popular não comprova que uma empresa seja legítima, assim como comentários positivos e vídeos de supostos ganhadores não garantem que os pagamentos apresentados sejam reais.

O saldo mostrado na tela pode não existir fora da plataforma
É nesse ponto que o golpe consegue prender a vítima.

Depois de depositar R$ 20, o usuário vê um valor muito maior dentro da conta. A partir daí, a cobrança de R$ 30 pode parecer apenas uma pequena etapa necessária para receber um prêmio que já estaria garantido.

O problema é que o saldo exibido pelo site não significa, por si só, que exista dinheiro disponível em uma conta bancária.

No caso analisado pela ZenoX, a própria estrutura do sistema contribuía para manter o saque pendente.

A vítima, portanto, não está necessariamente tentando retirar um dinheiro que possui. Pode estar tentando liberar um valor que existe apenas dentro da interface da plataforma.

O que mudou nas bets brasileiras em outubro de 2026?
O caso também precisa ser analisado à luz das novas regras que entraram em vigor neste mês.

A Medida Provisória nº 1.394/2026, publicada em 25 de setembro, proibiu no Brasil a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa.

A medida alcançou tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line e também estabeleceu regras para o encerramento das operações que existiam sob o regime anterior.

Os apostadores tiveram até 5 de outubro, às 23h59, para solicitar voluntariamente a retirada dos valores disponíveis nas plataformas. Desde 6 de outubro, os sites e aplicativos destinados à oferta de apostas de quota fixa deveriam estar indisponíveis.

Isso muda a forma como ofertas encontradas nas redes sociais devem ser encaradas.

Uma página que continue oferecendo apostas de quota fixa ao público brasileiro não deve ser confundida com uma plataforma regular simplesmente porque mantém aparência profissional, perfis ativos ou sistemas de pagamento.

E se a plataforma pedir dinheiro para liberar um saldo?

Esse é um dos principais sinais de alerta.

Se uma página disser que o usuário ganhou dinheiro, mas exigir outro Pix para liberar o saque, a orientação é não fazer o pagamento antes de verificar a situação.

Também não é recomendável enviar documentos ou informações pessoais adicionais para uma plataforma cuja legitimidade não esteja comprovada.

O ideal é guardar tudo o que possa ajudar a reconstruir o caminho da fraude: comprovantes, conversas, anúncios, links, capturas de tela, dados do destinatário do Pix e informações apresentadas pelo site.

Quanto mais rapidamente essas informações forem preservadas, menor o risco de perder evidências caso a página ou os perfis desapareçam.

Fiz um Pix para uma falsa bet. O que devo fazer?

A primeira providência é procurar o banco.

O consumidor deve informar que a transferência ocorreu em um contexto de fraude e perguntar sobre a abertura do procedimento de devolução pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix.

O Banco Central estabelece prazo de até 80 dias após a transação para solicitar o mecanismo em casos de fraude.

Isso não significa que o dinheiro será necessariamente devolvido. A instituição financeira precisa analisar a ocorrência e a recuperação depende, entre outros fatores, da existência de recursos que possam ser bloqueados.

A vítima também deve registrar um Boletim de Ocorrência.

O que guardar como prova?

É recomendável reunir:

  • comprovantes dos Pix;
  • valores e horários das transferências;
  • chave Pix e dados do destinatário;
  • endereço do site;
  • capturas de tela;
  • anúncios;
  • conversas com atendentes;
  • mensagens recebidas;
  • informações sobre o suposto prêmio;
  • nomes dos perfis que divulgaram a oferta.

Não apague as conversas mesmo que o perfil tenha desaparecido.

Como identificar uma falsa plataforma?

Não existe um único sinal capaz de comprovar uma fraude, mas algumas combinações devem ser tratadas como alerta.

Prometer milhares de reais em troca de um depósito de R$ 20 ou R$ 30 é uma delas. Cobrar uma segunda transferência para liberar o saque é outra.

Também merece atenção qualquer plataforma divulgada exclusivamente por links enviados em redes sociais, principalmente quando não há informações claras sobre a empresa responsável.

O consumidor deve desconfiar ainda de ofertas que apresentem ganhos como praticamente garantidos.

O que diferencia o golpe de um problema normal de pagamento?

Uma falha de processamento pode acontecer em qualquer serviço. O que torna a situação suspeita é a combinação de fatores.

No caso investigado, o usuário fazia um pequeno depósito, recebia a informação de que havia acumulado um valor muito maior e, quando tentava retirar o dinheiro, era direcionado para uma nova cobrança.

Se o pagamento adicional não resolve o problema e a plataforma continua pedindo dinheiro, insistir na operação pode aumentar o prejuízo.

O mais seguro é interromper a transferência e investigar antes de qualquer nova movimentação.

Por que golpes assim continuam atraindo vítimas?

O modelo explora uma reação bastante simples: o usuário vê uma oportunidade de ganhar muito dinheiro com pouco risco.

R$ 20 parecem pouco diante da possibilidade de receber R$ 2 mil ou R$ 3 mil.

Depois que o saldo aparece na tela, entretanto, a percepção muda. A pessoa deixa de enxergar o depósito como uma aposta e passa a vê-lo como o último passo necessário para retirar um dinheiro que acredita ter ganhado.

É justamente essa mudança de percepção que torna a cobrança adicional tão eficiente.

Com informações do Seu Crédito Digital

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo